como ler o rio
Onde o peixe fica em cada tipo de água, de corredeira e rebojo a boca de baía e corixo, e como o nível do rio muda tudo.
o princípio: comida, abrigo e pouco esforço
O peixe fica onde gasta pouca energia e a comida chega até ele. Procure fronteiras: água rápida ao lado de água parada, raso ao lado de fundo, claro ao lado de escuro, sol ao lado de sombra. A maioria dos ataques acontece nessas costuras.
dicas
- O peixe de rio fica quase sempre de cabeça para a correnteza, esperando a comida descer.
- Na curva do rio, a parte de fora é funda e tem barranco; a de dentro é rasa e forma praia.
corredeira, rebojo e remanso
Três tipos de água que aparecem juntos em quase todo trecho com correnteza.
dicas
- Corredeira: água rasa e rápida sobre pedra, bem oxigenada. Dourado e piraputanga caçam na cabeceira, onde a água acelera, na saída, onde ela perde força, e atrás das pedras. Arremesse rio acima ou atravessado e deixe a isca descer trabalhando.
- Rebojo: água que gira e borbulha atrás de pedra, ponta ou curva. O predador fica na borda entre a corrente e o giro, esperando o que passa. Passe a isca pela costura, não no meio do redemoinho.
- Remanso: água calma e lenta, em geral atrás de pontas e nas curvas de dentro. Área de descanso e de peixe de fundo. Pesque a borda onde a corrente encosta.
- Rebojo forte puxa barco e pessoa. Não ancore dentro dele.
poço, barranco e galhada
Estruturas que seguram peixe o ano todo, sobretudo na seca e no frio.
dicas
- Poço: o trecho mais fundo do leito. Peixe grande de couro (pintado, jaú) descansa ali de dia. Na seca e no frio, quase tudo se concentra nos poços. Pesque com isca natural no fundo ou com jig.
- Barranco: margem alta, cortada pela correnteza, com água funda junto. Barranco que cai direto em água funda e tem pau ou raiz é ponto clássico de pacu, pintado e cachara.
- Galhada: árvores e galhos submersos. Abrigo de tucunaré, traíra, trairão e da isca. Use isca antienrosco, linha mais forte e fricção firme: o peixe fisgado corre para dentro.
bocas, praias, espuma e encontro de águas
Pontos de passagem e de acúmulo de comida. Mudam de valor conforme o rio sobe ou desce.
dicas
- Boca de baía e de corixo: no Pantanal, baía é a lagoa ligada ao rio e corixo é o canal que faz a ligação. Na vazante, a água sai das baías carregando isca e o predador espera na boca. Na enchente, o fluxo se inverte e o peixe entra.
- Praia: banco de areia que aparece na vazante e na seca. O tucunaré patrulha praias nas primeiras horas da manhã; à noite, peixes de couro sobem para caçar no raso.
- Linha de espuma: onde duas correntes se encontram, a espuma e os insetos se acumulam. Embaixo dela tem comida e peixe.
- Encontro de águas: na boca de um afluente ou onde se juntam águas de cor ou temperatura diferentes, a divisa concentra isca. Pesque a linha da divisa.
o nível do rio manda
O mesmo rio vira outro em cada fase da água. Saber se ele está subindo, parado ou descendo vale mais que saber o mês.
dicas
- Enchente (rio subindo): o peixe acompanha a água nova para as áreas recém-alagadas e se espalha. Coincide com a piracema das espécies migradoras: respeite o defeso.
- Cheia: peixe espalhado no mato alagado (igapó, campo). Pesca mais difícil; procure bocas, canais e as bordas da área alagada.
- Vazante (rio descendo): a água sai do mato e das baías e o peixe sai junto. Bocas de corixo e de baía e pontas viram pontos fortes. Para muitas espécies, é a melhor fase.
- Seca: rio baixo, peixe concentrado em canais, poços e lagoas. Fácil de achar, mas desconfiado e pressionado. Chegue em silêncio.
- No Pantanal, no início da cheia, a decomposição da vegetação alagada pode derrubar o oxigênio da água (decoada), afastando e até matando peixes. Mude de área.
- Subidas bruscas e curtas (repiquetes) costumam derrubar a pesca por alguns dias.
abordando um trecho novo
Leia antes de arremessar. Cinco minutos olhando a água economizam uma hora de pesca no lugar errado.
- Observe correnteza, cor da água, espuma, sombras, pontas e paus.
- Identifique as costuras de corrente e as estruturas.
- Chegue por baixo (vindo de rio abaixo) e em silêncio, no remo ou no motor elétrico.
- Comece pelas bordas e pelo raso; depois passe para o fundo.
- Varie profundidade e velocidade da isca antes de trocar de ponto.
- Marque no GPS onde pegou e anote o nível do rio.
erros comuns
- Entrar com motor de popa até em cima do ponto.
- Pescar só o meio do rio e ignorar as beiradas.
checklist
Marque o que já está pronto. Fica salvo neste aparelho.
fontes e referências
- científica Junk, W. J.; Bayley, P. B.; Sparks, R. E. (1989). The flood pulse concept in river-floodplain systems. In: Dodge, D. P. (ed.). Proceedings of the International Large River Symposium. Canadian Special Publication of Fisheries and Aquatic Sciences 106: 110–127.Artigo sem DOI; a URL é o registro bibliográfico na base HERO da EPA (EUA).
- científica Welcomme, R. L. (1985). River fisheries. FAO Fisheries Technical Paper 262. FAO, Roma.
- científica Junk, W. J.; Cunha, C. N. da; Wantzen, K. M.; Petermann, P.; Strüssmann, C.; Marques, M. I.; Adis, J. (2006). Biodiversity and its conservation in the Pantanal of Mato Grosso, Brazil. Aquatic Sciences 68(3): 278–309.
- científica Hamilton, S. K.; Sippel, S. J.; Calheiros, D. F.; Melack, J. M. (1997). An anoxic event and other biogeochemical effects of the Pantanal wetland on the Paraguay River. Limnology and Oceanography 42(2): 257–272.Falta de oxigênio no início da cheia, a 'decoada'.
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